Fortalecimento Muscular em Hemiparéticos Crônicos

Iniciarei os posts com uma versão adaptada do meu primeiro trabalho científico, publicado em 2008 na Revista Neurociências

Versão original online: Revista Neurociências

Fortalecimento Muscular em Hemiparéticos Crônicos:

Fazer ou não fazer?

Em primeiro lugar devemos nos fazer duas perguntas: existe influência do exercício resistido sobre o tônus muscular dos pacientes hemiparéticos crônicos que, na maioria das vezes, possuem um componente espástico? E ainda, existe influência do mesmo tipo de exercício sobre a funcionalidade destes pacientes?

Sabemos hoje que a Doença Encéfalo-Vascular (DEV), também conhecida como Acidente Vascular Encefálico (AVE), é uma patologia de importância mundial na saúde pública, sendo responsável no Brasil por cerca de 80% do total de internações pelo Sistema Único de Saúde (SUS). É uma patologia de causas muitas vezes preveníveis, pela conscientização da população sobre seus fatores de risco, como a hipertensão arterial sistêmica, a diabetes melitus e as cardiopatias em geral. No entanto, a DEV é classificada hoje como uma causa comum de morbi-mortalidade em todo o mundo.

A DEV traz consigo seqüelas variáveis que incluem diversas alterações no campo sensorial, perceptual, cognitivo e motor, sendo sua seqüela mais comum a hemiplegia/hemiparesia, que é a presença de déficit de controle motor de um lado do corpo (total/parcial). Outras disfunções motoras encontradas são a fraqueza muscular global, espasticidade, padrões anormais de movimento e falta de condicionamento físico. Estas seqüelas podem reduzir a capacidade de realizar tarefas funcionais, limitando a independência e a qualidade de vida do indivíduo, contribuindo para uma pobre auto-estima, depressão, isolamento social e maior deterioração física.

Tradicionalmente, sabe-se que a espasticidade é uma seqüela importante no que se refere à recuperação da função motora. Além disso, pelo fato de ter sido observado clinicamente que o esforço físico exacerba a espasticidade, atividades terapêuticas envolvendo contrações musculares resistidas tornaram-se estritamente contra-indicadas para pessoas com lesão no sistema nervoso.

É consenso na literatura atual que a fraqueza muscular, presente tanto no lado hemiparético quanto no lado comumente denominado “não-acometido”, é uma séria limitação à função e à reabilitação, atrasando muitas vezes o ganho funcional do paciente hemiparético crônico ao longo da terapia, agravando ainda mais sua dependência funcional.

Então por quê não realizar o fortalecimento muscular para minimizar os efeitos da seqüela motora sobre a função dos pacientes hemiparéticos crônicos? Atualmente, novos estudos têm sido feitos para investigar os efeitos do treinamento de força muscular nestes pacientes. Historicamente, esta terapêutica não tem sido amplamente utilizada na reabilitação dos pacientes hemiparéticos crônicos em razão do receio, não comprovado cientificamente, de exacerbação da restrição imposta pelo músculo espástico e de reforço dos padrões anormais de movimento através da interferência do exercício na coordenação e no timing do controle motor. Entretanto, estudos recentes vêm demonstrando que é possível obter ganhos no desempenho motor e funcional sem alterar o tônus muscular dos pacientes hemiparéticos crônicos após a realização dos exercícios de fortalecimento muscular, mesmo através da utilização de aparelhos de musculação comuns.

Muitos estudos recentes demonstram associação significativa entre o ganho de força muscular de membros inferiores e a melhora da performance funcional, verificadas através de mensurações como a velocidade da marcha, a habilidade de subir escadas e o teste de caminhada de seis minutos. Este ganho de força muscular associado ao ganho funcional influencia indiretamente na qualidade de vida dos pacientes com hemiparesia crônica após a DEV, pois estes indivíduos passam a realizar novamente atividades antes interrompidas, melhorando sua participação social e sua independência.

A maioria dessas pesquisas tende a associar o exercício resistido a algum tipo de atividade funcional, como por exemplo fortalecer membros inferiores utilizando esteira ergométrica e posteriormente testar a função da marcha. Isso nos leva a pensar se não seria a associação de função à atividade de fortalecimento que estaria levando a um ganho funcional associado ao ganho de força muscular. Sim, isso é possível! No entanto, alguns estudos vêm utilizando apenas o fortalecimento muscular sem associar a nenhum tipo de função, com a utilização de aparelhos de musculação encontrados em qualquer academia, como o leg-press e as caneleiras com pesos graduados. Estes estudos também encontraram associação significativa entre o ganho de força muscular e o ganho de função, mensurada através da velocidade da marcha e do teste de caminhada de seis minutos.

Agora já conhecemos a associação entre os exercícios de fortalecimento muscular e a função dos pacientes hemiparéticos crônicos. Mas e a associação entre os exercícios resistidos e o tônus muscular?

A utilização de programas de fortalecimento muscular em hemiparéticos sempre despertou preocupações a respeito de possíveis efeitos deletérios sobre o tônus muscular. No entanto, muitos estudos hoje vêm mostrando que não existe alteração significativa no tônus muscular após a aplicação de um programa de fortalecimento muscular em hemiparéticos crônicos; nem para melhor, nem para pior. Logo, se não há alteração no tônus muscular e existe uma melhora significativa na força muscular associada à função, por que não realizar os exercícios resistidos com mais frequência na reabilitação de hemiparéticos crônicos? Além das melhoras motoras evidentes, ainda verifica-se um maior aproveitamento por parte dos pacientes, reduzindo a quantidade de faltas dos programas e minimizando o estigma de “doente”, trazendo o indivíduo para mais perto da equipe de reabilitação, melhorando ainda mais sua qualidade de vida e participação social.

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