O Poder da Conversa

“Aqueles que precisam ouvir os apelos e gritos de seu povo devem fazê-lo com paciência, porque as pessoas querem muito mais atenção para o que dizem do que para o atendimento de suas reinvidicações” (O Monge e O Executivo – James C. Hunter)

 

Essa frase está no mural da sala onde atendo os meus pacientes e é com ela que eu vou iniciar este texto de retorno ao blog.

Meu ramo de trabalho é a Fisioterapia Neurológica, portanto são pacientes que frequentemente permanecem em processo de reabilitação por meses e até anos após o evento original que os deixou com seqüelas. Seja AVC, lesão medular, neuropatias e miopatias… É comum que este paciente precise da equipe de reabilitação por um longo período de tempo após a lesão. E é igualmente freqüente que estes pacientes e familiares fiquem cansados de tantas idas e vindas em consultas, exames, tratamentos etc.

São indivíduos cansados de repetir seguidas vezes as respostas para as clássicas (e necessárias) perguntas dos profissionais “o que o traz aqui?”, “conte-me o que aconteceu”, “onde dói?” e outros. Muitas vezes os profissionais envolvidos ouvem as respostas, mas não escutam de verdade. E isso cansa!

Portanto, “aqueles que precisam ouvir os apelos e gritos de seu povo devem fazê-lo com paciência, porque as pessoas querem muito mais atenção para o que dizem do que para o atendimento de suas reinvidicações”. Ou seja, o paciente muitas vezes só quer ser ouvido, acolhido, compreendido. É a força da empatia!

Li uma matéria no NY Times que fala exatamente sobre o efeito placebo de uma boa conversa. Neste texto é citado um estudo canadense de 2014 sobre o papel da comunicação no tratamento da lombalgia crônica. Metade dos pacientes deste estudo recebeu tratamento com eletroterapia e a outra metade recebeu terapia placebo (onde o equipamento permaneceu desligado). De acordo com os resultados, o placebo funcionou muito bem! Os pacientes deste grupo relataram uma redução de 25% nos níveis de dor. Os pacientes que de fato fizeram o tratamento com eletroterapia apresentaram uma redução maior: cerca de 46%, o que comprova que o tratamento realmente funciona.

No entanto, os grupos (placebo e experimental) foram divididos na metade: parte foi atendido por fisioterapeutas que conversavam sobre tópicos limitados (o “terapeuta caladão”) e a outra parte vivenciou sessões de fisioterapia associadas à livre conversa, escuta ativa e palavras de encorajamento. E (pasmem!), este último grupo (do “terapeuta tagarela”) reportou melhora de 55% em seus níveis de dor, mesmo quando o equipamento de eletroterapia estava desligado! O grupo experimental (que de fato recebeu tratamento eletroterápico) que foi atendido por fisioterapeutas, digamos, mais enérgicos relatou melhora de 77% em seus níveis de dor.

A autora do texto do NY Times o finaliza com uma frase que achei sensacional. Em livre tradução, ela diz: “Pode chamar a conversa de placebo se você preferir, mas se isso ajuda sem causar danos, então isso é medicina. Aliviar o sofrimento, afinal de contas, é o que o juramento de Hipócrates quer dizer.

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